
E esta tua tão simples constatação teve a forma de máquina de teletransporte, numa fracção de segundo vi-me há quase 30 anos atrás. Ou melhor, senti-me lá: senti o cheiro dela quando se vinha deitar a meu lado com as suas longas camisas de noite de flanela, com flores desenhadas (?) – dos desenhos não me lembro bem, provavelmente porque já estava escuro nesse momento em que já só a sentia tão perto a ponto de apenas reter aquele cheiro morno, puro, macio, inocente, acolhedor, confortável. Era o cheiro que ela tinha sempre quando ia dormir. Definitivamente é uma memória repartida pelas caixinhas do olfacto e do tacto.
E hoje deitei-me a teu lado e és tu a verbalizar o que pensei tantas vezes no passado!
— É do creme das mãos — respondi a sorrir no instante imediato, sem que te tivesses apercebido da minha longa e distante ausência.